Menu Content/Inhalt
Início arrow Nossos Serviços arrow ATORES GLOBAIS
ATORES GLOBAIS PDF Print E-mail
Alimentos do Brasil
O Portal de Notícias da Globo

26/05/06 - 23h00 - Atualizado em 26/05/09 - 12h16

Abaixo o desperdício!

Talento em transformar alimentos se multiplica no trabalho da voluntária nas comunidades atendidas pela Pastoral da Criança em Curitiba.

 

A mesa é farta... Generosa! Pratos quentes e frios variados. Estrogonofe de abóbora, folha de assa-peixe à milanesa, arroz com casca de banana. Além, claro, das sobremesas: bolo de resíduos de melancia, doce de banana crocante, com casca. Um cardápio que parece estranho, mas que já é comum para uma família de Curitiba. 


Quando a novidade surgiu, há alguns anos, trazida pela mãe, a voluntária da Pastoral da Criança Maria Ceiça Hamester, provar alguns alimentos não era tão natural.

"Eu não gostava de salada. Eu olhava, misturava e comia só um pouquinho. Comecei a comer aos poucos e agora sou apaixonada", conta a estudante Katiana Hamester.

"Quando nos casamos, ela não sabia cozinhar. A gente serviu de cobaia no início", conta o funcionário público Luiz Hamester.

Em casa, o lugar mais movimentado é a cozinha, onde a família se reúne. Esse é o laboratório de Maria Ceiça, que já criou dezenas de receitas com o aproveitamento total de frutas, legumes, verduras e folhas encontradas na natureza.

As receitas são resultado de 15 anos experimentando, transformando, inventando. Todo mundo ajuda. "São 15 anos de trabalho escravo", brinca Luiz.

Nesta casa, é proibido desperdiçar. "Às vezes, quando alguém come uma banana e joga a casca fora, todo mundo diz: 'Ah, meu Deus, olha o tanto de comida que você jogou fora'", conta Maria Ceiça.

A história de vida de Maria Ceiça tem a ver com o cuidado dela em não desperdiçar alimentos. Ela sabe o que significa não ter o que comer. "Eu sei o que é fome porque já passei muita fome na vida. Eu comia de dois em dois dias. E o dia em que não comia, eu comia terra para encher a barriga. Essa foi a minha realidade", lembra.

Foi assim, procurando aproveitar ao máximo uma fruta, que ela inventou a sobremesa preferida da família: doce de banana com casca. Na panela, a banana vai ao fogo com um pouco de água até amolecer. Suco de um limão, calda de açúcar em ponto de puxa e... casca de banana bem picadinha, que dá o toque crocante.

"É o poder da multiplicação, da criatividade. Porque a multiplicação vem através da criatividade", comenta Maria Ceiça.

O talento em transformar alimentos se multiplica no trabalho da voluntária nas comunidades atendidas pela Pastoral. Maria Ceiça dá aulas de culinária em pátios de escolas e salões paroquiais. Leva sua experiência de vida de forma apaixonada. Um jeito doce de ser que envolve e conquista as pessoas.

Uma aula de culinária foi lecionada para um grupo de líderes da Pastoral. Elas aprenderam com Maria Ceiça receitas que serão ensinadas para as mulheres das comunidades pobres. É o caminho para que famílias de baixa renda se alimentem melhor gastando pouco.

"Ao fazer o alimento, não podemos ficar conversando em cima dele. O silêncio também é um tempero", ensinou Maria Ceiça.

Da teoria à prática. As mulheres se prepararam para exercitar o milagre da multiplicação. A agitação na cozinha da igreja foi grande. Lava, corta, tritura, tempera... Tudo sob o comando da professora, que não perdeu um movimento das alunas. De olho em cada detalhe do preparo, sempre orientando com a maior delicadeza. E a rainha da mesa foi a melancia.

Estamos acostumados a comer a melancia em fatia ou em suco. Há quem diga que essa fruta é pura água. Mas não é. No curso, até as sementes são aproveitadas. "Além de ter proteína e vitamina C, as sementes também têm cálcio", revela Maria Ceiça. "Da casca, que é rica em fibra, nós fazemos uma farofa".

O cardápio foi variado: pratos principais à base de melancia! Abençoada refeição. Um banquete feito de simplicidade: salada da entrecasca de melancia, farofa da casca de melancia, estrogonofe da entrecasca de melancia, suco de melancia, doce de melancia, saladas, molho vinagrete, arroz enriquecido com talos de verduras, feijão tropeiro, com berinjela frita, que parece toucinho. Ao todo, foram dez pratos.

"Nossa mesa está linda e não tem carne. Então, nós podemos comer muito bem quando não podemos comprar carne", ressaltou Maria Ceiça.

Nessa arte de multiplicar os alimentos, Maria Ceiça e as voluntárias da Pastoral acrescentam outros "ingredientes" que vão ajudar a levar mais comida às mesas brasileiras: amor, paciência, carinho e coragem.

 ASSISTAM O VÍDEO EXIBIDO NO GLOBO REPORTER:

http://g1.globo.com/globoreporter/0,,MUL1083232-16619,00-ABAIXO+O+DESPERDICIO.html